Memória de Elefante

By António Lobo Antunes

O primeiro livro de António Lobo Antunes. O enredo tece-se em torno da trajectória de um médico psiquiatra, desde o início da manhã, quando inicia o seu trabalho no health facility Miguel Bombarda, até às five da madrugada do dia seguinte, no seu apartamento do Monte Estoril. Entre o início e o fim do eixo narrativo, sucedem-se episódios que constituem o quotidiano do médico no decorrer desse dia. O primeiro livro de um autor que ao longo dos anos se impôs como um nome cimeiro na literatura portuguesa.

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E recordou-se de uma história que fazia parte do património commonplace, a de um casal amigo da avó, os Fonsecas, em que a mulher robusta tiranizava o marido baixinho: o senhor Fonseca, por exemplo, emitia um som tímido e ela gritava emblem – O Fonseca não fala porque o Fonseca é estúpido, o senhor Fonseca ia acender um cigarro e ela grasnava – O Fonseca não fuma, e assim por diante. Uma tarde a avó servia o chá a um círculo de visitas e ao chegar ao senhor Fonseca perguntou – Senhor Fonseca, verde ou preto?

Os polícias, de pé, debruçavam-se do parapeito dos cinturões para escutar melhor, à maneira de vizinhas assistindo da varanda a uma cena de rua. Um deles, de bloco em riste, tomava notas de língua de fora numa aplicação infantil. A velha que levitava no banco cruzou-se com ele a esvoaçar num espalhafato de perdiz exausta: cheirava a urina estagnada, a solidão e a abandono sem sabonete. Os odores da miséria, opinou o médico, os monótonos, merdosos e trágicos odores da fome e da miséria. Na sala reservada aos tratamentos os enfermeiros discutiam, encostados à maca, ao carro dos pensos, ao armário de vidro dos remédios, as curiosas peripécias da última Assembleia Geral de Trabalhadores, durante a qual o barbeiro e um dos choferes se haviam tratado reciprocamente de filho da puta, ceguinho e facho do caralho.

S vezes ouvia falar os doentes e pensava em como aquele tipo ou aquela tipa se enfiavam no poço e ecu não achava forma de os arrancar de lá devido ao curto comprimento do meu braço. Como quando em estudantes nos mostravam os cancerosos nas enfermarias agarrados ao mundo pelo umbigo da morfina. Pensava na angústia daquele tipo ou daquela tipa, tirava remédios e palavras de consolo do meu espanto, mas nunca cuidei vir um dia a engrossar as tropas porque european, porra, tinha força. Tinha força: tinha mulher, tinha filhas, o projecto de escrever, coisas concretas, bóias de me aguentar à superfície.

O pai, precedido pelo scent de brilhantina e de tabaco de cachimbo cuja combinação representou para ele durante muitos anos o símbolo mágico de uma virilidade segura, entrava no 4to de seringa em riste e depois de lhe arrefecer as nádegas com o pincel de barba húmido do algodão introduzia-lhe na carne uma espécie de dor líquida que solidificava num seixo lancinante: recompensavam-no com os frasquinhos de penicilina vazios de que se evolava um rastro de fragrance terapêutico, tal como dos sótãos fechados surde, pelas frinchas da porta, o aroma de bolor e alfazema dos passados defuntos.

Consoante? – É consoante a opinião do meu marido domador de leões de bronze marquês de Pombal Sebastião de Melo. Vendemos bichos amestrados a estátuas, reformados barbudos de pedra para repuxos, soldados desconhecidos a domicílio. O homem cessara de a ouvir: o corpo dele mantinha a curva obsequiosa de ponto de interrogação na aparência atento de terceiro oficial a despacho, a testa, para onde todos os acidentes geográficos do seu rosto convergiam como passantes para um epiléptico a lagartixar na calçada, amarrotava-se de asséptico interesse profissional, a esferográfica aguardava a ordem estúpida de um diagnóstico definitivo, mas no palco dos miolos sucediam-se as imagens vertiginosas e confusas em que o sono se prolonga manhã fora, combatido pelo sabor do dentífrico na língua e a falsa frescura publicitária da loção de barbear, sinais inequívocos de se esbracejar já, instintivamente, na realidade do quotidiano, sem espaço para a cambalhota de um capricho: os seus projectos imaginários de Zorro dissolviam-se sempre, antes de começarem, no Pinóquio melancólico que o habitava, a exibir a hesitação do sorriso pintado sob a linha resignada da sua boca autêntica.

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